
Hoje existe apenas um caminho legal para receber uma dose de retatrutida: estar matriculado como paciente em um dos estudos clínicos da Eli Lilly, farmacêutica responsável pela molécula. Não há venda autorizada, não há bula aprovada, não há registro em nenhuma agência sanitária do mundo.
Ainda assim, canetas anunciadas com esse nome circulam em sites, redes sociais e apreensões na fronteira brasileira —meses antes de a própria empresa terminar as pesquisas que sustentam o produto.
O ritmo dessas apreensões, feitas pela Receita Federal e pela Anvisa na fronteira de Foz do Iguaçu, cresceu tão rápido que o valor retido só nos três primeiros meses de 2026 —mais de R$ 11 milhões— já supera o total apreendido em todo o ano de 2025.
Só em junho vieram os primeiros dados robustos: um estudo publicado na revista The Lancet mostrou perda média de 28,3% do peso corporal entre pacientes com diabetes tipo 2 que receberam a dose mais alta.
Na apresentação desses resultados, no congresso da Associação Americana de Diabetes, representantes da própria Lilly já citavam o risco de a substância circular ilegalmente antes de existir de forma oficial.
Estar em fase avançada de testes não é o mesmo que estar perto das prateleiras.
Segundo a Anvisa, antes de pedir aprovação a qualquer agência reguladora, a Lilly precisa fechar o conjunto de estudos que define qual dose tem a melhor relação entre benefício e risco, quais efeitos adversos podem surgir, se há complicações raras que só aparecem em grupos maiores, quem não deve usar a substância, como ela interage com outros remédios e se o efeito sobre o peso se mantém ao longo do tempo.
Só depois disso a empresa pode solicitar o registro —e as agências ainda analisam a composição do produto, o processo de fabricação e o controle de qualidade da planta. Nada disso foi cumprido até agora. O que se vende hoje como retatrutida, portanto, é anterior à própria existência legal do medicamento.