O Senado aprovou nesta quinta-feira (17) a medida provisória que viabiliza a privatização da Eletrobras, a maior empresa de energia elétrica da América Latina.
Em um primeiro momento da sessão, os senadores votaram o texto-base, aprovado por 42 votos a 37. Depois, passaram à análise dos destaques, isto é, propostas que visavam modificar o conteúdo da MP, e todos foram rejeitados.
Como houve mudanças na versão aprovada pela Câmara dos Deputados, no mês passado, o texto precisará ser novamente analisado pelos deputados. A votação está prevista para a próxima segunda (21), um dia antes de a MP perder validade.
O texto incluiu “jabutis”, jargão utilizado por parlamentares em referência a trechos sem relação com o objeto original da MP (leia detalhes mais abaixo).
O governo afirma que a privatização da Eletrobras pode reduzir a conta de luz em até 7,36%. Entidades do setor elétrico, contudo, dizem que a conta pode ficar mais cara.
Durante a sessão, novas versões do relatório do senador Marcos Rogério (DEM-RO) foram apresentadas, e vários senadores discursaram sobre o texto.

Senado discute MP que abre caminho para privatização da Eletrobrashttps://ae0401042bb9352557b7a7686bf1d592.safeframe.googlesyndication.com/safeframe/1-0-38/html/container.html
Atualmente, a União possui cerca de 60% das ações da Eletrobras e controla a estatal. Com a capitalização, a partir da emissão de ações, deve reduzir a participação na empresa para menos de 50%. A projeção é que a União fique com cerca de 45% das ações.
Entre outros pontos, a proposta prevê que:

Miriam Leitão: ‘Para privatizar a Eletrobras, Governo está aceitando todo tipo de jabuti’
A proposta prevê expansão da geração de energia elétrica por termelétricas movidas a gás natural. Esse é, segundo senadores contrários à previsão, um dos “jabutis da proposta”.
A energia a gás natural é mais cara e, de acordo com especialistas, o valor de contratação será repassado aos consumidores.
Pelo texto aprovado no Senado, terão de ser contratados 8 mil megawatts, quantidade suficiente para atender quase 10 milhões de brasileiros.
Essas usinas termelétricas a gás natural terão de entrar em operação entre 2026 e 2030. Os contratos são para geração de energia por 15 anos.
As usinas termelétricas são consideradas importantes para aumentar a segurança do sistema elétrico brasileiro, pois não dependem de fatores naturais para funcionar, como chuva, vento e sol. Porém, são mais caras e poluentes que as usinas hidrelétricas, eólica e solar.
Pelo texto, a contratação deverá ser assim dividida:
Os leilões terão um preço teto de R$ 370 por MW/hora, valor a ser atualizado até a data de contratação.
Como parte das regiões escolhidas não possui infraestrutura de transporte de gás natural, associações do setor calculam em cerca de R$ 20 bilhões o valor para implementação dessa infraestrutura.
Outro trecho considerado “jabuti” cria reserva de mercado para Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs).
Os próximos leilões do governo para contratação de energia deverão prever a contratação de pelo menos 50% dessas pequenas centrais. Porém, essa contratação não pode superar 2 mil MW – quantidade suficiente para atender cerca de 2,5 milhões de pessoas.
Ultrapassados os 2 mil MW, o percentual cai para 40%. A regra vale para os leilões até 2026.
As PCHs são pequenas usinas com potência de geração de energia de até 50 MW, com área total do reservatório de água igual ou inferior a três quilômetros quadrados.
Esse item, segundo os senadores contrários à MP, também gerará repasse de custos aos consumidores.
Outro trecho visto como “jabuti” é o que prevê a prorrogação por mais 20 anos dos contratos do Programa de Incentivos às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa).
A crítica é que esse programa incentiva a contratação de fontes alternativas de energia, como a eólica, mas o preço pago pela energia dos projetos do Proinfa está acima do de mercado, gerando custo adicional para os consumidores, segundo os especialistas.
O PSDB apresentou um destaque para retirar os “jabutis”. Entretanto, a proposta foi rejeitada pelos senadores.
O texto aprovado também estabelece, entre outros pontos:
Foi retirado da proposta um trecho considerado “jabuti”, que estendia até 2035 um subsídio à geração de energia elétrica por meio de usinas termelétricas movidas a carvão mineral.
Essas usinas a carvão são ainda mais caras e altamente poluentes em relação aos outros tipos de usinas térmicas.
Com isso, o subsídio – que é bancado pelo consumidor nas tarifas de energia – continua com o fim previsto para 2027.
Durante a sessão, senadores contrários ao texto afirmaram que a votação estava acontecendo de maneira “atropelada”. Segundo eles, o relatório foi apresentado de última hora, não houve estudos para avaliar o impacto da medida e ela pode representar aumento no valor da energia ao consumidor.
Já parlamentares favoráveis rebateram as críticas e afirmaram que o texto evitaria o risco de apagão e recuperaria o protagonismo da Eletrobras.
Líder da minoria, o senador Jean Paul Prates (PT-RN) disse que estava havendo uma “barganha de megawatts” ao comentar as mudanças feitas pelo relator. “Nós estamos tratando disso aqui agora como se fosse uma ‘xepa energética’”, disse.
A senadora Simone Tebet (MDB-MS), antes favorável ao texto, disse que mudou de posição após as alterações feitas à matéria original.
Líder do Podemos, o senador Alvaro Dias (PR) chamou a medida de “retrocesso”, afirmou que não houve estudos suficientes sobre a medida e afirmou que cabe uma ação direta de inconstitucionalidade (Adin) contra o texto.
Já o relator do projeto, senador Marcos Rogério, sustentou que com o novo modelo de capitalização, a Eletrobras “terá de volta o seu protagonismo, com condições de investir, com condições de gerar energia mais barata e cada vez mais limpa”.
Ex-ministro de Minas e Energia durante o governo Dilma Rousseff, Eduardo Braga (MDB-AM) defendeu a medida provisória e afirmou que a proposta significará energia mais barata ao consumidor.
Líder do PL, Carlos Portinho (RJ) ressaltou que a medida traz uma alternativa à dependência da água. Para o senador Fernando Bezerra (MDB-PE), líder do governo Bolsonaro, a MP vai prover o país de energia “para que a gente possa acelerar o nosso desenvolvimento, gerando emprego e renda”. Segundo ele, mesmo com a medida, o país vai continuar investindo em energias renováveis.
G1